Senti-me humilhada, desrespeitada

Este é o texto de uma reclamação que a nossa equipa multidisciplinar apoiou. Uma associada nossa, Laura Ramos teve a coragem de reviver estes momentos e memórias que deveriam contar-se entre os mais felizes da sua vida, mas que acabaram por ser bastante traumáticos. Foi a sua vontade que esta reclamação tomasse a forma de uma carta aberta, pois quantas mulheres já não passaram por situações semelhantes?

“Lisboa, 21 de Junho de 2017

Exmo. Sr. Director do Serviço de Obstetrícia/Ginecologia,

Exma. Sra. Enfermeira Chefe da Urgência Obstétrica,

Exmo. Sr. Director Clínico,

Exma. Sra. Enfermeira Directora,

Venho por este meio apresentar uma reclamação contra a equipa médica e de enfermagem que assistiu o parto do meu filho nesta unidade de saúde no passado dia 22 de Dezembro de 2016, Processo Clínico com o número xxxxxxxx.

Dei entrada no Hospital XXXXX no dia 22 de Dezembro de 2016 pelas 11h30, em trabalho de parto (TP) e gestação de 36 semanas. O meu filho nasceu às 15h30, mas neste período de quatro horas, ao contrário de acolhida pelo Vosso Hospital e apoiada pela Vossa equipa, senti-me humilhada, desrespeitada e violada física e psicologicamente nos meus direitos. Não irei discorrer sobre as consequências ou o trauma que toda esta situação desumana me causou, tanto a nível físico como psicológico, por isso apresento apenas um relato objectivo do que aconteceu, uma parte baseada num clip de áudio que acidentalmente ficou registado no meu telemóvel.

1. Tudo começou quando fui recebida na Urgência por um médico (nome ilegível no processo clínico, Nº OM xxxxx) que antes de me dizer qualquer outra coisa, como por exemplo “Bom dia” ou simplesmente apresentar-se, me ordenou friamente que me despisse e me deitasse para proceder ao toque vaginal.

2. Apesar de, através do toque, ter confirmado que me encontrava já na fase activa do TP, com 6 centímetros de dilatação e contrações intensas com intervalos inferiores a 3 minutos, o mesmo médico obrigou-me a responder a um enorme questionário, que incluía, entre muitas outras perguntas burocráticas, questões sobre os meus partos anteriores, inclusivé com que peso tinham nascido os meus bebés, com quantas semanas, etc. Tendo eu já tido um parto neste mesmo hospital, há dois anos atrás, não deveriam ter já toda esta informação? Porque se obriga uma parturiente a burocracias, quando se sabe que ela não se encontra em situação de o fazer, devendo estar tranquila e focada no nascimento do seu bebé?

3. Entretanto, ouvia no corredor argumentações entre as enfermeiras e o meu companheiro, que tentavam impedir de entrar. Esta situação repetiu-se várias vezes durante o parto e o pós-parto. A parturiente não tem o direito de ter SEMPRE consigo um acompanhante?

4. Já na sala de parto, uma enfermeira acusou o meu companheiro de estar a “espreitar” pelas janelas da porta da sala de parto, que davam para uma área em open-space, e onde ela referiu que existiam outras senhoras em trabalho de parto. Fê-lo através de palavras bruscas e rudes, sem antes se ter inteirado das razões que levaram o meu companheiro a estar ali. Ficámos incrédulos com a insinuação, porque obviamente não sabíamos e nem se via nada dali. O meu companheiro justificou-se, explicando que se tinha aproximado dessa porta pois já tinha carregado no botão várias vezes para chamar a enfermeira, que nunca mais vinha. Esta mesma enfermeira veio mais tarde pedir desculpas pela maneira como nos tinha falado e tentou ser mais simpática connosco.

5. Enquanto decorria a fase de dilatação nunca me foram facultadas, alternativas para o alívio da dor que não fosse a epidural, como a utilização de um chuveiro ou banho quente, por exemplo. Utilizei, por minha iniciativa, uma bola de Pilates que estava cheia de pó em cima de um armário alto.

6. Quando estava na bola a fazer a dilatação, entrou uma profissional de saúde que não se apresentou, informando-me que me ia dar uma injecção de antibiótico, pois nos meus exames não constava o resultado do Strep-B. Expliquei que como entrei em TP antes do tempo, não tinha tido tempo de ir buscar esse exame ao Hospital XXXX, onde estava a ser seguida. Sei que caso o resultado fosse positivo seria recomendada a administração de antibiótico e nesse caso não me iria opor. No entanto, recusei o antibiótico “para já” e perguntei se seria possível ligar ao XXXX para saber o resultado, visto que caso o exame fosse negativo evitaria os riscos associados à toma de antibióticos desnecessários. A mesma profissional – que só mais tarde vim a saber ser a obstetra Dra. xxxxxxxx (número OM ilegível no processo) – mostrou-se logo desagradada pela minha decisão e, em tom paternalista, começou a descrever um rol de doenças e complicações que poderiam advir da minha recusa, incluindo a morte fetal: “Sabe que o seu bebé pode morrer?”.

Tentei manter a calma e pedi tempo para tentar saber o resultado do exame. Pouco depois, uma enfermeira veio dizer que não conseguiam contactar o XXXX, porque ninguém atendia o telefone. Resolvi então ligar eu própria para o XXXX (relembro que estava em trabalho de parto avançado), e depois de alguma espera consegui saber o resultado do exame do Strep-B: era negativo! Informei uma enfermeira, que me disse para então pedir o envio de um fax. Disse-lhe que já tinha desligado o telefone e que não iria voltar a ligar, pois tinha demorado bastante tempo no telefonema anterior. A mesma enfermeira disse-nos então que ia tentar obtê-lo através de uma amiga que trabalhava no XXXX, mas pediu que lhe desse o meu endereço de e-mail pessoal, ao que acedi. Tive então que abrir o meu e-mail no computador da sala de parto para facultar o documento à equipa.

7. Em consequência deste episódio, eu e o meu companheiro fomos deixados sozinhos durante algum tempo e o meu trabalho de parto desenrolou-se sem interrupções. O efeito da epidural começou a passar e as contrações voltaram a ser dolorosas, mas eu optei por não pedir reforço, pois achei-me capaz de fazer o parto sem anestesia. Encontrei a posição em que me sentia mais confortável de gatas, encostada à poltrona que está ao lado da cama. Foi então que a bolsa rebentou e as contracções aceleraram. Entrou uma enfermeira visivelmente alterada (confirmei mais tarde ser a enfermeira xxxxxx), a gritar “venham cá que esta vai parir no chão!”.

Ordenou-me que subisse para a cama e me deitasse, mas eu respondi que preferia ficar como estava. Perante a minha recusa começou a gritar comigo: “ninguém vai apanhar o seu bebé do chão, está-me a ouvir???! Ouça, tem que subir para a cama, vamos, eu ajudo-a!” O meu companheiro ainda tentou interceder, pedindo que me deixassem estar como eu achava melhor, mas como eu não me levantava, a enfermeira xxxxx agarrou-me no braço e começou a gritar “Tem que subir para a cama, a Doutora não vai fazer o seu parto no chão, está-me a ouvir?” Sacudi o meu braço e pedi-lhe que não me gritasse, mas como percebi que não me iria ser permitido ficar como queria, sob gritos e ameaças, subi para a cama. Já na cama voltei a pedir que por favor me deixassem ficar de gatas, porque me sentia melhor assim, o que me foi recusado peremptoriamente. Fiquei bastante confusa, visto que as recomendações das sociedades de obstetrícia são que a mulher deve parir na posição em que se sinta mais confortável, havendo benefícios em evitar a posição de litotomia em que me colocaram, incluindo menor risco de laceração do períneo.

Posso até compreender que o profissional de saúde tivesse que adequar a sua posição e eventualmente ajoelhar-se no chão junto de mim ou sentar-se num banco. Mas estando já na cama, não vejo a dificuldade da equipa em receber o meu bebé na posição que escolhesse e obrigar-me a ficar na posição que acredito ter sido responsável pela laceração do meu períneo e pelo modo intervencionista como decorreu todo o período expulsivo. Num parto às 36 semanas de um bebé com 2,925Kg, o risco de laceração seria mínimo se me tivesse sido permitido parir como eu própria senti que era melhor.

8. Quando me deitei na cama tinha à minha frente 6 pessoas totalmente estranhas, todas a olhar para mim de semblante carregado e de braços cruzados, a assistir ao meu parto como se de um espectáculo se tratasse. Não sei quem eram nem o que estavam ali a fazer. Muito barulho, pessoas a conversar, material a bater ruidosamente e luzes todas ligadas, apesar de eu ter pedido para as baixarem o máximo possível.

9. Entrou então a médica obstetra, com os braços levantados, de luvas, bata, máscara, touca e uma viseira enorme de plástico transparente, de tal maneira que mal lhe conseguia ver os olhos. Lembro-me de ter pensado que parecia que vinha retirar alguma coisa radioactiva de dentro de mim. Compreendo a necessidade de manter o ambiente limpo, mas o parto dificilmente será um procedimento estéril dada a relação anatómica entre a vagina e o ânus, e este tipo de vestimentas apenas transmite uma mensagem não verbal de distanciamento e aversão pela parturiente e pelo bebé. Compreendo também que sejam medidas de controlo de infecção hospitalar, necessárias e protocolares, mas o impacto poderia ser minimizado pela informação atempada das razões do seu uso e pela empatia da pessoa que utiliza todos estes meios.

10. Porque se preparava para fazer episiotomia sem me pedir consentimento e eu recusei, iniciou-se uma argumentação entre mim e a Dra. xxxxx, que chegou claramente de má vontade e cuja energia já tinha contaminado o humor de toda a equipa. A Dra. xxxx insistiu com a episiotomia e eu mais uma vez recusei. – “Não quero episiotomia! Não, não quero!” Ao que ela respondeu – “Então quer rasgar por aí fora, é?” Digo, sem alternativa, “Sim, é.” Ao que a Dra. xxxxx responde: “E eu não quero gritos!”. Perante a minha indignação tentou desculpar-se dizendo que era contraproducente para mim e para o bebé se eu gritasse. Eu ainda disse “mas o que é isto, eu estou em trabalho de parto, gritar é normal!” Resposta da Dra. xxxxx:

“Depende do ponto de vista”. Ora se o ponto de vista de uma obstetra é não ouvir gritos, talvez devesse considerar seriamente outra profissão, já que a probabilidade de haver partos silenciosos é bastante reduzida.

11. Peço à enfermeira xxxxx para levantar um pouco mais a cama e ela pede autorização à médica: – “Se a Dra. deixar… posso?”, ao que a Dra. xxxxx responde: “Por mim…”

12. Na continuação das contracções, a Dra. xxxxxx iniciou um discurso insistente de que eu tinha que fazer força, inserindo várias vezes as mãos dentro da minha vagina. Tudo sem o meu consentimento e claramente contra a minha vontade, porque além de não sentir vontade de fazer força, pedi desde a primeira vez, e sempre, que não introduzisse as mãos dentro da minha vagina. A médica justificou-se:

“Não é bom para o bebé ficar muito tempo no canal de parto”. Eu pedi calma, que ainda nem há 10 minutos rebentaram as águas, que me dê tempo a mim e ao bebé, ao que ela respondeu novamente que “o bebé não pode ficar no canal de parto a tarde toda”. Ora, tanto quanto se sabe, o período expulsivo pode durar até várias horas desde que o estado fetal seja tranquilizador, e segundo sei também, em momento algum houve dúvidas quanto ao bem estar do meu bebé. Mas ao longo de todo o período expulsivo a Dra. xxxxx insistiu inúmeras vezes em introduzir as mãos dentro da minha vagina, magoando-me, parecendo-me até que o fazia propositadamente, apesar de eu lhe ter pedido, de todas as vezes que o fez, para não o fazer. Perante esta violação da minha vontade clara e expressa, senti-me obviamente vulnerável e pedi que tivessem calma: “eu vou colaborar, eu ajudo-vos, mas por favor tenham calma. Vou fazer toda a força que puder, mas por favor não me toque”. Novamente o argumento de que o bebé não podia ficar a tarde toda no canal de parto, ao que eu respondi “Eu percebo isso, mas ele vai sair, dê-lhe tempo”. A Dra. xxxxx colocou-me sob um stress e uma ansiedade absolutamente desnecessários e reforçou dizendo-me: “não podemos ser fundamentalistas com nada, tem que nos deixar ajudar”. – “Eu não sou fundamentalista”, respondi já claramente desarmada e sem forças.” Diz então a Dra. xxxxx: “Mas tem que fazer força em baixo, está a fazer força na garganta.” Ao que eu respondo, mais uma vez:

“Quando vier a contracção eu faço força em baixo, mas por favor não me toque agora. Por favor, a sério, eu consigo, eu vou-vos ajudar, mas não me mexa.” Não entendo a necessidade dos profissionais dirigirem os meus esforços expulsivos, quando o meu corpo é que dava os óbvios sinais de quando tinha ou não que fazer força. A bolsa tinha acabado de romper, o período expulsivo durava há poucos minutos e sem intercorrências, por isso também não compreendo a insistência da obstetra em intervir tanto. Acredito sinceramente que seria muito mais produtivo se não estivessem constantemente a interromper-me e a dar-me ordens confusas durante as contrações.

13. A enfermeira xxxxx quis também, por seu lado, apressar o processo, em tom que considerei ser cínico e de ameaça. Tal como a Dra. xxxxx, culpou-me mais uma vez por não estar a ser bem sucedida na força que fazia: “Ouça, ouça a nossa pergunta, está com contracção ou não? Quando estiver avisa e diz e nós então vemos se está a fazer força em baixo, combinado? Pronto, o CTG agora está assim, quando o CTG der sinal que nós temos que avançar para qualquer coisa… ou então vamos usar fórceps porque não está a fazer esforços expulsivos que sejam eficazes, está bem, Laura? Não é por nada, a gente não quer pôr nada que seja desnecessário… Está a ficar com contracção? Deixe-se instalar bem e faça força cá em baixo, cocó duro. Ponha o rabo para dentro, puxe os ferros para si, isso. Mais, seguido, seguido… mais rápido!!” Dra. xxxxxx: “ Força, força, força. Deite o ar fora e inspira outra vez, força cá em baixo para fazer o cocó.” Não senti que estas pessoas me ajudassem, muito pelo contrário. Precisava de alguém empático, que soubesse esperar e respeitar estes momentos tão importantes e influentes nas nossas vidas. “Obstare”, verbo que deu origem à palavra “obstetra”, significa estar ao lado, assistir a mulher ou prestar auxílio. Não significa intervir, muito menos sem consentimento.

14. Passaram apenas 15 minutos desde que subi para a cama, obviamente o meu tempo, o tempo do meu bebé e as nossas vontades não estão a ser respeitados, muito pelo contrário. Todos os procedimentos que estão a ser adoptados pela equipa contrariam as evidências científicas de que ele deve decorrer com o mínimo de intervenções possíveis. Não há qualquer benefício em fazer a manobra de Valsalva no parto (encher o peito com ar e fazer força seguida) e pode até ser prejudicial, principalmente porque já foi identificada como um dos factores de risco de trauma genital em partos vaginais espontâneos e normais. Também não há qualquer benefício em colocarem constantemente a mão dentro da vagina, além de ser invasivo e de eu ter pedido repetidamente para não o fazerem.

15. A Enfermeira xxxxx insiste novamente: “-Tem contracção? Então vamos aproveitar, é só soprar, enche o peito de ar e faz força cá em baixo”. Respondo, “-Eu estou a fazer força, calma!” Enfermeira xxxxx: “-Laura, só está a fazer na garganta”. Enfermeira xxxxx: “-Tem que fazer força cá em baixo!” Enfermeira xxxxxx insinua novamente que poderão recorrer aos fórceps: “-Faz força, mas pelos vistos não é eficaz. Se calhar vamos ter que dar uma ajudinha, está bem?” Digo que “-Não, não é assim, estas coisas levam o seu tempo”. Ao que a Dra. xxxxx responde: “-É assim sim, nós sabemos quanto tempo é que estas coisas demoram, nós estamos cá todas há vários anos.” Tento dizer ainda: “-As pessoas não são todas iguais…”, mas claramente já me faltam forças para argumentar. Acredito que nenhuma grávida deveria ter que enfrentar uma batalha com quem é suposto ajudá-la no momento do parto! Reforça a Dra. xxxxx: “-Nós já estamos aqui todas há vários anos, está bem? Nós estamos a deixar as coisas seguir o seu curso, mas também tem que aceitar a nossa ajuda, Laura!” Respondo: “–Está bem, mas eu estou a aceitar!”

Dra. xxxx, em tom ameaçador: “–Pronto, mas nós estamos a ver que não está a fazer força eficaz, por isso….”

16. A enfermeira xxxxx sobe para cima de um banco ao lado da cama e coloca as mãos na minha barriga para tentar a manobra de Kristeller. Dou um salto e afasto-lhe as mãos, diz a enfermeira xxxxx: “Não, não, Laura, espera, só estou a … calma, eu não vou fazer nada, só estou aqui com a mão que é para ver como é que…”

17. Perante esta lamentável situação, e para resumir, com receio de ainda mais intervenções e que venham a usar fórceps, faço uma força sobre-humana na contracção seguinte.

18. Apenas alguns excertos do que se pode ouvir entre os meus gritos e gemidos de sofrimento, nos momentos que antecedem o nascimento do meu bebé: “-Está com contracção, Laura? Enche o peito de ar e força cá em baixo.” Enfermeira xxxxx: “Vamos, força, não empurre os ferros, puxe-os para si, força lá em baixo. Mais, mais, mais, mais.” … “-Laura, não está a ser muito eficaz, está bem? Está a ficar com contracção? Então força, força, mais força.” Sinto-me exausta e desgastada de ouvir tantas instruções, só quero que se calem todas, apaguem as luzes e me deixem sozinha com o meu companheiro. Mas a Dra. xxxx continua: “-Laura, fez bem agora a força, agora tem que fazer o máximo de tempo que conseguir. Que é para ser eficaz, para o bebé ficar cá em baixo.” Sinto outra contracção e mais uma vez a Dra. xxxx: “-Vá vá vá vá, mais seguido, mais mais mais mais mais mais, vamos vamos vamos, não desiste, não desiste, muito bem, mais um bocadinho. Se tem contracção deita fora o ar e volta a encher. Tem contracção? Está a sentir a pressão cá em baixo, vamos lá. Está com contracção agora? Respira fundo, concentra, enche o peito de ar, vá, cá em baixo, vamos, vá vá vá vá vá, não desiste, vai vai vai, muito bem…. Vai rasgar! ….. Não levanta, Laura!” Enfermeira xxxxxxxxx:

“-Ouve a Doutora, Laura…..”

19. O meu bebé nasce. São 15h30. Passaram apenas 23 minutos desde que subi para a cama. Não entendo a pressa e o stress em que me colocaram se os batimentos do meu bebé estavam bem. O bebé chora, a enfermeira xxxxx fala muito e muito alto, sem ter noção do ruído que provoca e do respeito que deveria demonstrar perante o ser humano que acaba de chegar ao mundo.

20. Ainda não tenho o meu filho nos braços e a Dra. xxxxx já está a colocar o clip no cordão umbilical, de tesoura na mão e dirigindo-a para mim, perguntando se corto eu o cordão ou corta o pai. Sinto dores lancinantes, mas ainda consigo responder que não queremos cortar já, porque o queremos deixar pulsar. Vejo que a Dra. xxxxx o vai cortar e tentei evitar que o fizesse, digo: “-Deixe…” Dra. xxxxx: “-Não puxe aí, não ponha aqui a mão…” E corta imediatamente o cordão, justificando-se “…. já passou 1 minuto, tenho que cortar.” – na verdade passaram apenas 30 segundos, o meu bebé nasceu às 36 semanas e não sabemos ainda se poderá precisar de ajuda para respirar, por isso digo, impotente – “Não, eu não queria cortar o cordão umbilical já!” O meu companheiro reforça: “Nós queríamos… não cortar o cordão…” E eu novamente reforço “Não queríamos cortar o cordão já!” Responde a Dra. xxxxx “….Tem que se cortar depois de o bebé estar cá fora, está bem?” Hoje em dia são conhecidos os benefícios do clampeamento tardio do cordão umbilical, facto que não devia ser alheio a uma profissional de obstetrícia, já para não falar em não ter sido consentido, contra a vontade clara e expressa dos pais do bebé.

21. Logo de seguida, numa atitude completamente irresponsável e negligente e acima de tudo sem me informar ou pedir qualquer consentimento, a Dra. xxxxxx puxa violentamente pela placenta através do cordão, de tal maneira que a sinto descolar repentinamente e sair de dentro de mim como se fosse a rolha de uma garrafa.

22. A dequitadura da placenta foi forçada e não natural, pois apenas dois minutos após o bebé nascer a Dra. xxxxx diz: “-Agora não se vai mexer, está bem Laura, que eu vou ter que suturar.“ Respondo, em claro sofrimento, que me está a doer muito.

23. Há muito barulho à volta, coisas a arrastar, instrumentos a bater ruidosamente, pessoas a falar muito alto. Continua a ouvir-se sempre a voz estridente da Enfermeira xxxxxx: “-Está toda atada, eu disse para você não atar a camisa, e você atou, mulher?!” Eu abraço o meu bebé no peito e apenas faço “-Sssshhhh, sssshhh”. O meu pedido de silêncio não é respeitado. Os bebés não deveriam ser recebidos neste ruído e confusão, pois têm direito a ser respeitados enquanto seres humanos que acabam de chegar ao mundo.

24. A Dra. xxxxx suturou-me com violência, sem me oferecer qualquer tipo de anestesia, apesar de me ter queixado, dizendo várias vezes que me estava a magoar muito. Implorei que tivesse calma e que não me carregasse no períneo com tanta força, ao que ela respondeu sempre que tinha que ser assim, porque tinha que estancar o sangue.

25. A Dra. xxxxx não mostrou, em qualquer momento, empatia por mim, pelo meu companheiro ou pelo meu bebé. Nunca nos tratou como seres humanos dignos de respeito e, na nossa opinião, agiu cínica e sarcasticamente durante todo o processo do parto, adoptando uma atitude demasiado intervencionista, autoritária e paternalista. Desapareceu sem mais nada nos dizer.

26. Ficou então comigo a enfermeira xxxxx, que pediu ao meu companheiro que fosse buscar a minha roupa ao carro. Perante a resistência do meu companheiro em abandonar a sala, a enfermeira xxxxx disse: “acredite, ela vai precisar da roupa”. Ele saiu e ela perguntou-me se eu não queria urinar. Eu respondi que achava que sim, mas não tinha certeza. E foi então que ela subiu para cima do banco ao lado da cama, e sem nada me perguntar, cerrou os dois punhos e carregou-me violentamente na barriga, de tal maneira que me senti esvair em líquido. Assustei-me e ela disse “não se preocupe que é só xixi”. Percebi então porque é que ela tinha insistido com o meu companheiro para sair.

27. O meu bebé felizmente estava bem, mas ao contrário de feliz, eu sentia-me totalmente devastada. Chorei. Chorei muito. Não conseguia perceber o que tinha acontecido ou o que é que eu tinha feito para ser tratada daquela maneira.

28. A única profissional que me tratou a mim, ao meu companheiro e ao meu filho como seres humanos, e com quem finalmente sentimos empatia, foi a Dra. xxxxx, neonatologista (desconheço sobrenome ou número OM), que recebeu o nosso bebé com a devida dignidade e respeito. Manifestou-se sempre carinhosa e aberta ao diálogo, um autêntico oásis no meio do deserto, e certamente fez com que a transição do meu filho para este mundo fosse tranquila no meio do drama em que transformaram, desnecessariamente, o nosso parto. Soube sempre manter a calma e respeitar o nosso tempo, mesmo já no puerpério, incentivando a minha vontade de amamentar exclusivamente, quando duas enfermeiras (xxxx e xxxxx) insistiam constantemente numa lavagem ao estômago do bebé e para que desse suplemento. Por esse facto, e por todo o apoio e confiança que depositou em mim e no meu bebé, lhe presto o nosso público louvor e o devido agradecimento.

Finalmente, e em resumo, enumero o que não posso admitir como procedimento normal nos partos hospitalares e que considero ser violência obstétrica:

1. A abordagem meramente mecânica do parto que ignora a mulher como um ser humano individual com opiniões, vontades e emoções próprias. A grande maioria dos profissionais nem sequer se apresenta, deixando a parturiente na dúvida se se trata de um médico, um enfermeiro, um auxiliar, um segurança ou uma senhora da limpeza.

2. A falta de empatia e de apoio num momento em que a parturiente está vulnerável e em clara desvantagem, obrigando-a a desfocar-se do seu parto e do seu bebé para preencher burocracias infindáveis entre contracções. Forçá-la a ter argumentações desnecessárias com os profissionais de saúde, apenas porque as suas opiniões e decisões são diferentes das esperadas, embora baseadas em evidências científicas.

3. O desrespeito, ou mesmo ignorância, da dimensão sexual e íntima da fisiologia do parto, forçando a mulher a expor-se perante um número de intervenientes estranhos e desnecessários, que só vêm atrapalhar todo o processo e humilhar a parturiente.

4. O desconhecimento das necessidades básicas de uma mulher em trabalho de parto, que tem a capacidade de intuir com o seu corpo as suas necessidades, se o ambiente à volta for propício, e que têm sido corroboradas pelos mais reconhecidos especialistas mundiais em obstetrícia e pela mais recente investigação científica.

5. A presença de tantas pessoas, que não se sabem comportar numa situação desta solenidade com o devido silêncio e respeito, fazendo muito barulho, falando alto e trazendo constantemente para a sala de parto assuntos que não interessam à parturiente e a distraem.

6. A atitude paternalista por parte dos profissionais de saúde, que tratam a parturiente como um ser humano acéfalo, que nada sabe e sem direito a ter opinião própria ou mesmo dar o seu consentimento.

7. O discurso do medo por parte dos mesmos profissionais, como forma de convencer a parturiente a acatar ordens e a aceitar todas as intervenções sem as questionar.

8. A não disponibilização de quaisquer alternativas de alívio da dor, para além da anestesia epidural.

9. O total desprezo da obstetra perante a vontade e as decisões expressas pela parturiente, agindo de forma que parecia premeditada e vingativa, contaminando toda a equipa com o seu mau-humor e destabilizando emocionalmente a mulher em trabalho de parto.

10. A obrigação da posição supina no período expulsivo, pois pode ser confortável para o médico, mas é extremamente desconfortável, dolorosa e anti-natura para a mulher. Não foram facultadas quaisquer alternativas, apesar de sabermos que no XXXX existem, por exemplo, bancos de parto. Não foram também admitidas outras posições, apesar da manifesta vontade da parturiente, como parir de cócoras ou de gatas, ou na posição que se sentisse mais confortável, mesmo em cima da cama para facilitar o trabalho da equipa.

11. A pressa em acelerar um processo que decorria com toda a normalidade, tentando convencer a parturiente que o bebé tinha que sair rapidamente do canal vaginal, obrigando-a a fazer força desumana e desnecessária, reforçando ainda que os seus esforços expulsivos eram ineficazes, humilhando-a e ameaçando-a com a utilização de fórceps.

12. A repetida violação física e psicológica por parte da médica e da enfermeira, fosse através da introdução das mãos na vagina contra a expressa vontade da parturiente, ou através de ameaças de que iriam usar outros métodos para colmatar as suas alegadas falhas.

13. A inevitável laceração do períneo perante a força e a posição que a parturiente foi obrigada a adoptar e ainda o sarcasmo da obstetra no momento do nascimento, dizendo “vai rasgar”, informação totalmente desnecessária para a parturiente nesse momento.

14. O corte do cordão umbilical do bebé imediatamente após o nascimento (30 segundos) contra a vontade claramente expressa pelos pais e contra as recomendações da Organização Mundial de Saúde.

15. As atitudes negligentes da obstetra, que podiam ter colocado a parturiente em risco de hemorragia e mesmo de vida, puxando a placenta pelo cordão umbilical de forma brusca e totalmente irresponsável.

16. A sutura da laceração do períneo de forma violenta e sem qualquer tipo de anestesia, sentida como forma de punição à parturiente.

17. A incapacidade do dispositivo hospitalar, com as suas directivas protocolares, reconhecer quando existe verdadeira necessidade de intervir, originando na maioria das vezes partos distócicos (caso do nascimento da minha segunda filha, que nasceu com recurso a uma ventosa, também no XXXX) ou paragens de trabalho de parto que culminam em cesarianas sem qualquer necessidade (caso do meu primeiro filho no XXXX).

18. A ainda vigente ideia errónea de que quem faz um parto é um médico ou um enfermeiro, quando na realidade são a mãe e o bebé os únicos a fazer o parto, salvo em casos de urgências, cesarianas ou outras complicações, que na evidência científica correspondem a apenas cerca de 10% dos partos.

19. A tendência em justificar intervenções ou atribuir causas de partos distócicos e cesarianas a alegadas incapacidades ou deficiências do corpo da mulher. É uma cultura de total desrespeito e acima de tudo desconhecimento científico que perdura até hoje nos rituais hospitalares e que invoca uma falsa narrativa de segurança para as mulheres em trabalho de parto.

20. Não se pode admitir também que a parturiente seja tratada com uma atitude autoritária, como se nada soubesse nem nada tivesse a opinar, acusando-a de fundamentalismo quando manifesta as suas decisões.

21. Não se compreende, por fim, que uma equipa de obstetrícia não tenha a formação indispensável para respeitar o processo natural de um parto normal, intervindo o mínimo possível e apenas em caso de necessidade, tal como provam as evidências científicas.

Caro Dr. xxxxxxx,

Não vou tornar esta carta ainda mais longa citando a Declaração Universal dos Direitos Humanos, o Juramento de Hipócrates, as Recomendações da Organização Mundial de Saúde ou do ACOG, a Convenção de Oviedo ou até mesmo o Código Penal. Também não vou discorrer sobre o que os mais reconhecidos especialistas mundiais em partos e nascimento, como Michel Odent ou Frederick Leboyer, dizem, nos seus estudos e livros publicados, sobre o que deve ser e representar o momento do nascimento na vida de um ser humano, tanto a nível clínico como emocional.

Vivi uma situação traumática, infelizmente pela terceira vez, mesmo sabendo que isso podia acontecer. E muito embora me considerasse uma pessoa informada, tendo entrevistado na minha qualidade de jornalista vários especialistas internacionais na área da obstetrícia, como Michel Odent, Barbara Harper ou Naolí Vinaver, não consegui evitar mais uma situação de violência obstétrica. Claro que preferia esquecer, como fiz nos dois primeiros partos, e não ter que lhe escrever esta longa carta, mas não posso. Não posso mais compactuar com esta realidade triste e lamentável. Tal como muitos milhares de mulheres em Portugal, fui vítima de abuso e de violência obstétrica dentro de um hospital público. Tenho, por isso, a obrigação moral de finalmente, após confirmar que estas práticas são muito mais correntes do que se possa imaginar, denunciar o meu caso, para que se acabe com este flagelo nos hospitais portugueses. A mulher em trabalho de parto e o bebé que nasce estão a viver um momento único e irrepetível nas suas histórias, um momento fantástico e maravilhoso que é a celebração da vida. O que deveria ser prática comum era atribuir-lhe a devida solenidade e respeito. É um crime contra os direitos humanos e uma vergonha para a classe médica e de enfermagem a forma desumana como muitos profissionais da obstetrícia tratam as parturientes nos hospitais portugueses, aproveitando-se da sua condição frágil e vulnerável.

No dia 22 de dezembro de 2016, na Unidade de Obstetrícia do XXXX, foi-me roubada, gratuitamente, a possibilidade de viver em pleno o momento único e irrepetível do nascimento do meu filho, por profissionais de saúde que cometeram verdadeiras atrocidades, infelizmente encaradas como procedimentos hospitalares normais.

Por isso, e para que todos tenham conhecimento, esta reclamação é endereçada

não só a si, mas também ao Director Clínico do XXXX, Dr. xxxxxx, à Enfermeira Directora e à Enfermeira Chefe da Urgência Obstétrica do mesmo hospital, Enfªs xxxxxx e xxxxxxx, respectivamente.

A reclamação seguirá também para a Entidade Reguladora da Saúde, Ordem dos Médicos, Ordem dos Enfermeiros e em forma de carta aberta ou petição (subscrita por todas as mulheres que se tenham sentido alvo de violência obstétrica) para o Ministro da Saúde, a quem será pedido que sejam revistas as práticas do parto em ambiente hospitalar.

Com os melhores cumprimentos,

Laura Ramos, parturiente

João Ramos, pai e acompanhante

Vasco Ramos, bebé recém-nascido”

 

Foste vítima de violência obstétrica? Informa-te do que podes fazer na página da APDMGP “Sombras do Parto – pelo nascimento respeitado e digno”:

https://sombrasdoparto.wordpress.com/

14 comentários em “Senti-me humilhada, desrespeitada

  1. Adoro, ADORO, quando as pessoas lêem coisas na internet e acham que têm equivalência (ou mais até) a um curso de Medicina, com especialidade de obstetrícia incluída. Sim, 30min de leituras num grupo de grávidas do Facebook equivale a 13 anos a estudar para ser obstetra. Depois só fazem figuras ridículas. Nem sei para que foi para o hospital, sinceramente. Mais valia ter parido em casa. Se não corresse bem, teria os seu benefícios. Sempre bom quando atua a seleção natural.

    1. Estudei bem mais de 13 anos, não sigo grupos de grávidas, não sou obstetra mas felizmente estou equipada para interpretar evidência científica e direitos humanos. As opções desta equipa médica e de enfermagem, se verdadeiramente relatadas, violam direitos humanos e não são baseadas na evidência científica. Isto que a Laura apresenta aqui é a “cultura de cuidados” desta equipa nada tem a ver com o Curso de Medicina.

  2. Subscrevo inteiramente as palavras da Laura… Comigo aconteceu praticamente da mesma forma … Desumano e muito errático esta forma de assistir um parto.
    É preciso que se mude muito e muita coisa nas maternidades públicas do nosso país… Principalmente que se dê ouvidos a este tipo de relatos que cada vez são mais… O que deverá querer dizer alguma coisa…

    .

  3. Enquanto houver um único relato deste género, obviamente os Direitos Humanos não estão a ser respeitados, as mulheres e os seus companheiros estão a ser violentados, a mulher é violada e mutilada no Serviço Nacional de Saúde!
    A minha alternativa é óbvia: parto domiciliar (caso seja de baixo risco) assistido por uma Enfermeira Parteira.
    Desejo a todos e a todas boa sorte.

  4. Eu também sofri bastante mas não coloquei metade dos seus obstáculos. Você não facilitou nada desculpe dizer lhe !

  5. A Medicina é um dos pilares fundamentais, na nossa Sociedade. Infelizmente a classe médica não acompanha! É a classe mais prepotente e calculista, que existe e devia ser a mais humilde e dedicada!

  6. sinto muito pelo que passou. posso dizer que o meu primeiro parto foi também horrível. também passei por essa violência de não ser respeitada…raparam me os pelos sem consentimento. deixaram horas a sofrer sem me darem peridural ou alternativas(estive 24h em trabalho de parto) vieram estagiários onde tdx keriam por a mão para verificar a dilatação (eram uns 8)opus me e apenas deixei 1 estagiário verificar. a médica k me fez o internamento saiu do seu turno e quando voltou a entrar ficou espantada por ainda eu estar ali e decidiu adiantar tudo. acabei por sofrer um parto com ventosas. segundo parto na mesma maternidade igual. violência. de várias formas . uma das violências foi chamarem me vaca e me dizerem que na estava na praia. eu k apesar de todas as dores nunca dei um grito. já sentia a cabeça da minha filha a empurrar para sair e o meu marido chamou a enfermeira que disse que era impossível porque tinham rompido a bolsa há apenas 5 minutos. o meu marido a ver a minha página a abrir porque a minha filha estava a nascer e a enfermeira a dizer que era impossível…ate que o meu marido já farto de tanta estupidez agarrou nela por um braço para lhe mostrar a cabeça da bebe á começar a ver se..entre muitas outras coisas. . terceiro parto decidi mudar de maternidade. não tive o mxmo tipo de violência que havia tido nos dois anteriores…mx fiquei sempre chocada por não darem certas opções. por levarem o bebê para longe de mim. por haverem umas 6 pessoas para assistirem ao parto. todas aquelas luzes…instrumentos…enfim..
    quarto e quinto parto troquei de país. partos impecáveis…propuseram me montes de opções. haviam apenas 3 pessoas na sala comigosto e uma dessas 3 era o meu marido. luzes baixas…musica ambiente…entre outros. partos que levaram o seu tempo mas sem ninguém a apressar…respeitaram o tempo do parto…o pós parto igual…os meus bebes vieram directamente para as minhas mãos..mandaram me ficar meio sentada para serem as minhas mãos a pegarem os meus bebes…directamente para mim…para o meu peito…pele com pele…a placenta foi retirada mto mais tarde quando viram que já estava bem para retirar…o cordão…maravilhoso…o pai cortou…quanachamos que estava na hora. meus bebes nunca saíram da minha vista. tudo foi feito no quarto de parto foi pesado medido etc etc etc. também foram vestidos com a primeira roupa que levei e não com os os 3 nascidos em Portugal que foram vestidos com roupa do hospital. só posso dizer que os dois últimos partos foram maravilhosos…tal e qual sempre tinha imaginado mx que em pt não me foi permitido…mxmo sabendo que poderiam ter sido também assim.
    sim sofri de violência obstétrica dos 3 primeiros partos.
    felizmente consegui “esquecer” essas terríveis experiências e consegui também concretizar 2 partos ideais. Portugal tem muito a aprender em relação a humanização só parto. hospital amigo da grávida e do bebê não é qualquer um.
    peço desculpa pelo longo testemunho mas só pata que se perceba que há muitas formas de violência obstétrica e que ainda e muito praticada.
    mulheres denunciem.
    Vera Vaz

  7. Sofro de insuficiência anal há 40 anos por ter passado pela mesma situação , na maternidade Alfredo da Costa em Lisboa.

  8. Não sou mãe, e já não vou ser de parto natural mas subscrevo esta petição. Bem haja, Sara, pela sua partilha.

  9. Boa tarde, depois de ler o seu testemunho, percebi que também eu fui vítima de violência obstétrica, a outro nível.

    Tive Diabetes Gestacional e a médica que me seguia em Sta Maria (era uma gravidez de risco) disse-me que eu não podia passar das 39 semanas. Agendou a indução de parto para dia 6, creio. Mas eu não teria o bebé com ela. Estava indisponível. “Não se preocupe, aqui está segura!”
    A indução inicial consistia na colocação de uma espécie de balão que eu teria que puxar em casa, para abrir o colo do útero. Não funcionou. O Francisco simplesmente não estava pronto para nascer, nem o meu corpo estava pronto para o nascimento. No dia 9 dei entrada em Sta Maria. O Francisco nasceu no dia 11. Foram dois piores dias que eu passei. Ao meu lado estava uma miúda que tinha feito uma gravidez não vigiada e portanto, tratada com algum desprezo porque tudo o que lhe estava a acontecer era “culpa dela”. Eu estava uma pilha. O António (o pai) pôde pernoitar na sala de indução. Numa cadeira desconfortável e torta, mas não saiu do meu lado. Para ter o bebé em Sta Maria tive que assinar um documento em que aceitava ser vista por estudantes, uma vez que era um hospital-escola. Aceitei. Como não aceitar? O que é que eu ia dizer? De x em x horas era vista por um grupo de internos liderados por um médico. Todos me tocavam. Não havia maneira do meu corpo aceitar que era a altura do Francisco nascer. Porque não era. De novo, o médico e os seus pupilos. O médico, armado em espertinho, queria ser engraçado, queria ter piada, mas só me ofendeu. Enquanto fazia o toque, disse “Eh pá, isto parece o túnel do Marão!” A “equipa” veio ver. Às tantas eu disse “Por favor, eu sei que isto é um hospital-escola, vocês têm que aprender, mas pelo menos coloquem lubrificante nas luvas!” A minha vagina foi assaltada sem dó. “Só somos três” respondeu uma. Eu fui interrompida pelos gritos da miúda ao lado. “Ah afinal, queres epidural?” pergunta a enfermeira, jocosa. A miúda diz que sim. Percebe-se que não entende muito bem pelo que está a passar; percebe-se que é muito imatura. Percebe-se que é uma criança de 17 anos a ter um bebé. Está sozinha, o namorado entra e sai, preocupado. O António tenta sossegá-lo. E eu, na nervoseira…. “Vou ter uma crise de ansiedade, não me fechem as cortinas, que eu sufoco aqui.” Peço à enfermeira se pode deixar as cortinas abertas e ela diz “depende”. Depende? Passou a noite. No dia seguinte, a rapariga ao meu lado continua em trabalho de parto. Tem um médico, estagiários e enfermeiras à volta dela. Sente-se mal. Entra o anestesista que olha e diz de imediato “ela está em sepsis!!” Levam-na a correr para o bloco. A rapariga está com uma septicémia e ninguém deu por nada. Choro muito. De nervos, de ansiedade. O António que tinha ido a casa tomar banho volta com um embrulho. “São bonbons para as enfermeiras.” A diferença que uma caixa de bonbons faz. Agora só vejo sorrisos à minha volta e até me oferecem uma cama nova, para eu sair do cubículo de cortinas beje.
    E não há maneira de o Francisco nascer. Vem novo médico e com ele traz novos estagiários. Novo toque. Novos toques, novas mãos. Sem lubrificante. “Bom, isto não pode ser, vamos rebentar as águas” – diz o médico. Mas, mas… rebentam-me as águas. Ou melhor, forçam. Vem o anestesista com a epidural. De todos, o mais sensível, o mais empático. O António sai para jantar. É dia 11, 8 da noite. Estou a mentalizar-me que o meu bebé vai nascer. Estou em modo “day-dreamimg” quando o médico entra, vê o CTG e diz “já para o bloco, o bebé está em sofrimento. Este não vai lá pela via baixa”. Pela via quê??? Mas e o António??
    Tinha 43 anos, era o primeiro filho, a minha vida ia mudar e tudo o que eu não precisava era de uma má experiência de parto. Possivelmente, não vou ter mais filhos e este foi um milagre, queria tanto que tudo fosse bonito. Imaginei o António ao meu lado, eu a segurar no Francisco, a fotografia da praxe, mas com uma anestesia geral, nada disso aconteceu. Acordei gelada, com um bebé limpinho ao meu lado, com um “agora, dê de mamar” e com uma rápida retirada do Francisco dos meus braços, porque estava com espasmos no corpo. “O que me está a acontecer???” “Parecias possuída” diz agora, o António, que foi autorizado a entrar e a ver-me por breves minutos. Consequência? Fiquei com crises de ansiedade nos restantes 4 dias que fiquei internada. Tive uma crise de pânico, não conseguia dormir, estive mais de 48 sem dormir. Veio uma psicóloga falar comigo. “As enfermeiras não sabem se a Rita está preparada para cuidar do bebé”. DESCULPE????? Eu estou é desejosa de sair daqui para cuidar do meu bebé!” O que devia ter sido uma alegria, foi tudo menos. Eu queria sair dali. Chorava quando o António saía e ansiava pelas 13:00h do dia seguinte. Estava com medo que não me dessem alta. Mas saí no dia 11.
    Costumo dizer que Santa Maria tirou-me a Mãe e deu-me o filho. Só queria que tivesse sido diferente, porque tenho uma mágoa muito grande de não ter assistido ao nascimento do meu filho.

  10. Confesso que fiquei a tremer depois de ler esta carta, mas pela primeira vez sinto-me validada na expressão de um parto traumatizante, física e psicologicamente.
    A minha situação foi semelhante, mas em Inglaterra, há 42 anos. Com a diferença que eu estava sozinha, aterrorizada perante as ameaças de “apanhar pancada se tirasse outra vez a máscara da cara”, tão confusa por causa dos medicamentos que me foram forçados que não sabia onde estava, nem o que me estava a acontecer, a pontos de pensar que queriam obrigar-me a fazer mergulho logo quando eu não me sentia nada bem… (ridículo, mas verdade).
    Seguiu-se uma episiotomia forçada, que foi mal suturada (de acordo com o médico que consultei mais tarde) sem anestesia. Semanas depois encontrar-me-ia de novo no hospital com uma infecção generalizada. Não pude ter mais filhos. E ainda sinto sequelas das cicatrizes.
    Das poucas vezes que referi isso a outros profissionais de saúde, incluindo aqui em Portugal, houve um encolher de ombros e a designação de “parto normal”. Até que me calei.
    Entristece-me saber que houve mais partos assim. Bem haja, Laura Ramos, pela sua coragem e determinação, e fica aqui um abraço para todas as mulheres que se sentiram espezinhadas no que deveria ter sido um dos dias mais felizes da sua vida.

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