ADAPTABILIDADE, ou a Chave da Mãe Perfeita

Captei a vossa atenção com este título chamativo?

Boa, era mesmo essa a minha intenção. Mas peço já desculpa pela publicidade enganosa: não existe mãe perfeita.

Há a mãe cansada, a mãe trabalhadora, a mãe multi-tarefas, a mãe enfermeira, a mãe carinhosa, a mãe cozinheira, a mãe motorista, a mãe professora, a mãe treinadora, entre muitas outras… mas perfeita, perfeita não há. Ou por outro lado, haver há, mas a definição é outra. Mãe perfeita não é aquela que faz sempre 100%  o que é correcto no momento certo, mas aquela que consegue fazer o melhor que pode com as condições (às vezes difíceis) em que se encontra.

Somos seres humanos, com as nossas qualidades e defeitos (embora me espante com a capacidade de resiliência e de versatilidade de muitas Mães: só podem ser seres sobrenaturais para conseguir fazer tudo o que fazem!). Apesar de tudo, estamos todos os dias susceptíveis (as mães, especialmente) ao escrutínio público e privado. Há sempre um desconhecido que se cruza connosco e nos dá um conselho, há sempre aquela amiga ou familiar que tem a certeza que as coisas se fazem “melhor” de outra maneira. Mas, e o que é mais grave, é quando há alguém que nos aponta o dedo e acha que não fazemos o suficiente, suficientemente bem (estes geralmente também não ouvem o que realmente precisamos, ou se oferecem para ajudar no que quer que seja). Quero acreditar que o fazem com a melhor das intenções, mas ainda assim digo: ouvidos moucos.

Eu era uma pessoa bastante organizada, embora não desse grande valor a rotinas. Depois que a nossa primeira filha nasceu conseguimos continuar assim, descontraídos, mas cedo percebi que tínhamos de baixar as nossas expectativas – e as dos outros às vezes, – pois nem sempre os bebés se adaptam aos nossos horários/compromissos (nem devem ter que o fazer, eles ou os cuidadores que tratam deles a tempo inteiro). Sou muito grata por sempre ter tido família e amigos prestáveis e compreensivos por perto. Especialmente os que já tinham filhos.

Mas o grande choque foi depois das gémeas nascerem. Eu, que achava que já tinha isto da maternidade sabido de trás para a frente, apanhei com o vendaval que é ter duas ao mesmo tempo, e foi o descalabro. Vamos ser francos, a parentalidade de um é cheia de utopias e princípios, mas quando se tem que lidar com dois (ou três, ou quatro…), e neste caso com mais dois bebés em simultâneo, vai a teoria (quase) toda pelo cano…

O amor, infinito, multiplica-se mas o tempo, finito, tem que se dividir… Se com a mais velha tinha tempo para fazer tudo com alguma calma, ao início com as gémeas – após a curta licença de paternidade e o regresso ao trabalho do meu marido – eu com as três parecia que estava constantemente em contra-relógio a apagar fogos: quando não era uma, era a outra, e mesmo quando o meu marido estava e me ajudava, dávamos por nós a pôr a mais velha em auto-gestão porque, coitada, era a única que já se desenvencilhava sozinha. Optimisticamente, planeava fazer 10 coisas no dia seguinte e no final do dia às vezes nem meia coisa tinha conseguido fazer (para além do “básico” de as manter vivas, limpas e alimentadas: e digo básico entre aspas porque primitivamente a função primordial da mãe era essa. Hoje em dia com tanta tarefa e responsabilidades é que parece que as 24h do dia não chegam para tudo). Havia dias com ajuda e outros sem ajuda. Dias começados a rir em que acabávamos as 4 a chorar, e houve mesmo dois ou três dias em que o meu marido chegou a casa e eu saí porta fora, porque precisava de respirar, precisava de 30 minutos só para mim, só para não ouvir choros, ou “mãe’s!”, para ser só a Maria e não a mãe de alguém. Isto não é egoísmo ou falta de desvelo familiar, é simplesmente um mecanismo de auto-preservação. Se eu não estiver bem, não consigo estar bem… para elas. Umas respirações profundas mais tarde e o desespero dava lugar à calma, e à saudade daquelas mãos pequeninas que se estendem continuamente para mim.

Por isso, no primeiro ano de vida das gémeas, algumas coisas tornaram-se fundamentais:

Criar rotinas. Reparei que se tivesse uma rotina (não rígida, mas ainda assim, reconhecível) melhorava exponencialmente o dia porque eu sabia as horas a partir das quais a coisa “descambava”. Ao mesmo tempo, elas sabiam o que esperar do seu dia também. Não é algo “escrito em pedra”: mesmo que haja excepções ou deslizes ocasionais, há depois um confortável regressar à rotina.

Apanhar ar. Faça chuva ou faça sol, com 1 ou com mais crianças, com recém-nascidos ou pré-adolescentes, um passeio ao ar livre acaba sempre por refrescar as ideias e arejar a cabeça. Sim, por vezes passamos mais tempo a prepará-los para sair (ou a lavá-los ao chegar!) do que propriamente o tempo que estamos na rua, mas ainda assim uma saída serve para espairecermos, nós e eles.

Não criar expectativas. Em vez de propor objectivos diários, passei para objectivos semanais. Principalmente, levar um dia de cada vez. Não se fez hoje? Amanhã também é dia. Isto foi um exercício muito interessante para aprender a prioritizar as tarefas: Ao longo do dia, se as coisas mudavam pensava sempre “ok, o que é que é tem MESMO que ser feito agora?”.

Valorizar. Não é uma boa sensação, sentir que falhámos e que não somos capazes (quando na realidade estamos a esquecer tudo aquilo que realmente já fizemos). E às vezes com um nível de cansaço extremo (eu durante praticamente 3 anos não dormi 6 horas seguidas – isto porque também me fartava de acordar com desconfortos durante a gravidez delas, – e só isso já é considerado uma forma de tortura segundo a Convenção de Genebra…). Parar 2 minutos, para estar grata por tudo o que já consegui fazer nesse dia dá-me confiança para continuar.

Perdoar. Esta é das traiçoeiras. Porque ou achamos que estamos a fazer tudo como deve ser, ou consciente (ou inconscientemente), sabemos que devíamos ter feito mais, chegado mais cedo, não ter perdido a paciência, etc. É importantíssimo praticar a compaixão, especialmente connosco. Saber que sim, podíamos ter feito melhor, mas naquela situação não conseguimos. Para a próxima, poderemos tentar. Isso faz-me sair da espiral negativa de “Porquê chatear-me? Nunca irei ser melhor que isto” e potenciar uma espiral positiva “Sei que hoje descaí, mas amanhã será melhor”.

Ter um escape. Criar momentos só nossos, em que fazemos algo que gostamos. Parece um contrasenso, com pouco tempo arranjar ainda algum para fazer mais uma coisa, mas se essa coisa nos der prazer, são momentos em que conseguimos descontrair e sentirmo-nos realizadas. (Uma das minhas escapatórias foi (e é) a APDMGP!)

Quanto a comentários negativos, das duas uma: simplesmente optar por afastar-se dessas pessoas – que provavelmente nem percebem nada de ter um filho ou vários, – ou, se isso não for possível, ignorar os seus comentários. Outra opção é confrontá-las e dizer: “olha, mais do que falar queres ajudar? Então dou-te uma lista de coisas que podes fazer por mim.” Isso geralmente surte efeito: pelo menos ou se calam ou então até fazem qualquer coisa para nos ajudar.

Aceitar ajuda. Hoje em dia, estamos cada vez mais isolados nos nossos “cubículos” pessoais e é muito raro viver a verdadeira noção  de comunidade. Ainda assim, não se inibam de aceitar ajuda ou pedir ajuda quando precisarem. Quem oferece, geralmente fá-lo de coração e há que saber delegar porque há coisas que só a mãe consegue com o bebé. Para tudo o resto, há os outros, mesmo que não fique exactamente do jeitinho que nós gostamos.

Ser flexível. O mais importante é manter a adaptabilidade às situações. Mais concretamente à importância de ler as necessidades únicas de cada bebé/família e a nossa capacidade de nos adaptarmos a elas. Não há só uma solução “certa”, e se estivermos a conduzir olhando só para o mapa e não para a estrada em si, apesar de estarmos a seguir um caminho, não estamos a ver os obstáculos e atalhos que se apresentam à nossa frente.

Manter as coisas em perspectiva. Keep it real, keep it simple… Vão haver dias (e noites) bons e outros menos bons. Vão haver avanços e retrocessos. Mas nada é mais certo do que o passar do tempo, e este tempo de dificuldades também irá passar, mais rápido do que pensamos, e sei que um dia também eu vou ter saudades da altura em que mediam menos de metade da minha altura e precisavam fundamentalmente de mim para o seu conforto…

Deixo o link para uma das super-mães de cuja existência relatei acima: esta está na Holanda mas serve o propósito do texto: https://youtu.be/llQmKXAGeXU

Maria Pereira ~ Mãe (exausta mas feliz) de 3 filhas e Sócia Fundadora da APDMGP

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