25 de novembro: pelo fim da Manobra de Kristeller

O dia 25 de novembro é o Dia Internacional para a Eliminação da Violência contra as Mulheres. Entre este dia e o dia 10 de dezembro, o Dia dos Direitos Humanos, decorre uma campanha de 16 dias de ativismo, lançada pelas Nações Unidas. O tema deste ano, é #HearMeToo (Ouve-me Também).

A violência contra as mulheres foi desde sempre pautada pela impunidade, segredo e silêncio. Estima-se que, no Mundo, uma em cada três mulheres sejam vítimas de violência de género. A violência obstétrica foi descrita pela escritora americana Elisa Albert como “a última forma de violência contra as mulheres culturalmente aceite”. É infringida no contexto da assistência à gravidez e ao parto e engloba a violência física e/ou emocional, a negligência, e o negar-se à mulher os seus direitos humanos básicos, a sua autonomia e o seu poder de decisão sobre o que acontece com o seu corpo.

A Associação Portuguesa pelos Direitos da Mulher na Gravidez e Parto escolheu como tema para este ano a Manobra de Kristeller, após a resposta avassaladora à nossa partilha desta notícia no Verão passado:

“No dia 16 de agosto, após uma gravidez normal, Reneta Tomova deu à luz o seu primeiro filho num hospital em Sliven, na Bulgária. Após o parto, esta disse ao marido que lhe doíam as costelas, pois os médicos tinham “saltado para cima da sua barriga”. O bebé nasceu com paralisia de Erb-Duchenne, uma paralisia do braço e um inchaço na cabeça, e foi transportado para uma clínica na capital da Bulgária, em Sofia. A mãe morreu apenas 24 horas após o parto.”

A manobra de Kristeller é uma intervenção no período expulsivo que envolve a aplicação de pressão manual na parte superior do útero em direção ao canal do parto. Esta é uma prática desaconselhada segundo a mais recente evidência científica, relatada como desconfortável e perigosa (WHO, 2018). Atualmente, é um procedimento que se enquadra no âmbito da violência obstétrica (Human Rights in Childbirth, 2015). Geralmente não fica registada no processo clínico da mulher.

 

Quando partilhámos esta triste notícia de morte materna, estávamos longe de imaginar os inúmeros comentários e relatos espontâneos sobre casos de Manobra de Kristeller nos hospitais portugueses que ia desencadear. Histórias que demonstram que esta prática continua viva em Portugal:

“ A mim fizeram essa manobra dois homens, um enfermeiro e o meu marido que nem sabia onde estava a fazer força! Em 2008. A pressão quase me fez desmaiar e senti vasos no rosto rebentarem. Em resultado nunca mais fiquei com bexiga normal.

Também me fizeram esta técnica há um ano atrás….mas como estava com sobredosagem de epidural não senti nada, nem praticamente tinha noção do que estava a acontecer….no dia a seguir tinha uma dor na barriga e disse ao meu marido “não sei porquê mas dói-me aqui” ao que ele me respondeu “ não tens mesmo noção do que te fizeram pois não?? Não sei como não te dói aí com a brutalidade com que saltaram para cima de ti!!

Também passei por isso em 2013. Como se não bastasse, pressionaram com os cotovelos e penduraram-se em cima de mim praticamente. Consegui dizer para saírem de cima de mim e saíram, mas aqueles momentos pareceram uma eternidade! Todo o meu primeiro parto foi de uma violência extrema e graças a Deus o segundo foi santo!

Também me fizeram esta manobra, foi das piores dores da minha vida, quase perdi os sentidos, implorei para que parassem, mas não pararam, como não deixaram o meu marido assistir ao parto não tive quem me defendesse.

Foi-me aplicada esta técnica. Não sabia sequer da sua existência, mãe de primeira viagem.

Também me fizeram isso em 2006 na minha primeira gravidez. Uma auxiliar veio disparada e jogou-se de cotovelos para cima de mim, até parecia que me tinha partido as costelas. Deixei de respirar. A dor era horrível. A parteira disse que não era preciso pois o bebé estava mesmo em baixo.

A mim não fizeram nem um minuto. Ganhei forças e gritei “você não me torna a fazer isso!” Nem voltaram a tentar.

Sofri na pele. Nem conseguia respirar nos dias seguintes…nunca sofri tanto.

 

Também me aconteceu, fizeram duas tentativas falhadas pensei que morria quando a enfermeira veio de cotovelos em cima da minha barriga. Ainda gozaram por eu gritar de dor.

 

Em 2014 também me fizeram isto. A minha filha também nasceu com lesão do plexo braquial. Gritei porque não conseguia respirar, quanto mais fazer força!

 

Em 2015 fizeram me isso e foi muito doloroso. O enf. pressionava a minha barriga e eu implorava para me tirar o braço de cima de mim, mas não adiantou. No dia seguinte não me conseguia levantar e mal conseguia falar de tanta pressão que foi feita na minha barriga.

 

Fizeram-me isso no meu primeiro parto, o médico saltou com todo o seu peso para cima de mim pelo menos seis vezes, a dor foi tão grande que desmaiei.

 

Tantos relatos e infelizmente vão continuar a fazer essa técnica. Infelizmente também me fizeram isso.

 

Fizeram-me em fevereiro deste ano. Fizeram-me uma vez, quando foi para fazerem a segunda esmurrei a mão do médico e ele saiu. Era madrugada de sexta feira de carnaval, entendi a pressa dele…

 

Também passei por essa manobra em 2012, num parto altamente violento.

 

No meu primeiro parto foi-me feita esta manobra e outras…

 

Aconteceu-me a mim. Foi horrível, com os cotovelos em cima das minhas costelas.

 

Também fui vítima dessa manobra em 2012…fique com duas nódoas negras ao nível das primeiras costelas.

 

Já no nosso questionário Experiências de Parto em Portugal, algumas mulheres referiram também ter-lhes sido aplicada a manobra de Kristeller.

 

A manobra de Kristeller é uma consequência direta do parto horizontal. Quando a mulher está numa posição vertical, a gravidade ajuda o bebé a descer e a mãe está mais ativa para, quando sentir vontade de fazer força, poder participar numa saída mais eficaz do bebé. A posição em litotomia (deitada de costas), principalmente se a parturiente estiver com as pernas em posição ginecológica, reduz o diâmetro pélvico em cerca de 30%, o que obriga a mulher a fazer mais força e o bebé a ter menos espaço e mais dificuldade para sair. Quando o parto se torna excessivamente medicalizado, cada intervenção vai surgir para corrigir a anterior.Existe já muita evidência científica atual que sustenta o argumento de que o parto vertical é mais seguro, e potencialmente mais rápido e menos doloroso para as mulheres, reduzindo também a necessidade de intervenção.

As mulheres lembrar-se-ão para sempre de como foram tratadas no seu parto. Como mencionado nas últimas Recomendações da Organização Mundial de Saúde de Cuidados Intraparto para uma Experiência de Parto Positiva publicadas em fevereiro de 2018, “é fundamental garantir que o parto não só seja seguro, como uma experiência positiva para as mulheres e as suas famílias. Os cuidados centrados na mulher podem otimizar a qualidade da assistência ao parto através de uma abordagem holística baseada nos direitos humanos.”

Não é aceitável que situações de violência, que seriam condenáveis e questionadas noutros contextos, deixem de o ser no contexto do parto. E esta lamentavelmente é a história de todas as mulheres, e do que acontece quando são empurradas para o fim da hierarquia no seu próprio parto.

Porque a forma como damos à luz, e como nascemos, importa, se queremos construir uma sociedade mais igualitária, humana e democrática.

Convidamos todas e todos aqueles que de alguma forma se relacionam e se interessam por estas temáticas a juntarem-se a nós, nas Marchas de Lisboa e do Porto, por partos dignos e respeitados.

*créditos da imagem: “Man and pregnant woman”, de Kenneth Agnello

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