10 CM

“Toques feitos por muitas pessoas diferentes.” – esta é um dos relatos das muitas mulheres que responderam ao questionário da Associação Portuguesa pelos Direitos da Mulher na Gravidez e Parto, “Experiências de Parto em Portugal-2012-2015”. Esta frase, sei que me vai ficar para sempre na memória.

Toques? Toques onde?

“Toque” é o termo corrente para denominar o exame vaginal, feito muitas vezes apenas por rotina às mulheres, no contexto da assistência à gravidez e ao parto. O/a profissional de saúde insere dois dedos dentro da vagina da mulher. Este é um procedimento feito com o intuito de determinar o grau de dilatação do colo do útero, se está apagado ou não, a posição do bebé, e o quão fundo está em relação à pélvis da mãe. No entanto, a verdade é que o exame vaginal não permite adivinhar o futuro. Apenas define como está o colo do útero naquele. preciso. momento. Por isso , vamos lá parar de enganar as mulheres e dizer que conseguiremos prever seja o que for.

O que nos diz a evidência científica?

Para além do mais, não há evidência de que os toques vaginais produzam melhores resultados quer para mães, quer para bebés, como podemos ver aqui.  e até já se chegou à conclusão de que a dilatação do colo do útero durante o parto fisiológico é algo impossível de se prever, pois não segue uma dinâmica linear, como nos dizem aqui.

Muitas mulheres sentem que os toques vaginais são invasivos, desconfortáveis, ou mesmo dolorosos. Será que já parámos para pensar se aquela mulher tem um historial de abuso sexual, e que este “toque” pode desencadear memórias traumatizantes? Tem ainda alguns riscos associados, nomeadamente, a introdução de infecção no útero e/ou no bebé.

Mas porquê?

O exame vaginal ou toque é mais um sintoma da nossa cultura da pressa. Deixámos de ouvir a mulher, como ser complexo, e que em trabalho de parto tem necessidade de privacidade, segurança, e precisa sentir confiança, para se entregar ao processo e permitir que as hormonas façam o seu (maravilhoso) trabalho. Mas de onde veio esta impaciência, esta necessidade de se “medir” o progresso do parto, ou o estado do colo nas últimas semanas de gravidez? O obstetra americano Emanuel Friedman, foi um dos que mais contribuiu para aquilo que é das maiores falácias da obstetrícia moderna. Friedman analisou mulheres em trabalho de parto nos anos 50 e a partir daí idealizou um gráfico, ainda hoje chamada a Curva de Friedman, que descrevia quanto tempo uma mulher demorava a dilatar cada centímetro, durante o trabalho de parto. Friedman fez distinção entre as primíparas e multíparas. Mas em média, decretou que uma mulher dilataria 1cm por hora. Apesar de obsoleta, esta visão redutora da mulher em trabalho de parto ainda é muito utilizada e referida nos manuais de medicina atuais, e está embrenhada naquilo que se considera ser “normal”. Em 2010, chegou-se através deste estudo  às curvas de Zhang, onde se concluiu que “permitir que o trabalho de parto continue por um período mais longo antes dos 6 cm de dilatação cervical pode reduzir a taxa de intervenções e subsequentes partos por cesariana”. Estas “curvas” são bastante mais sensatas. No entanto, cá está aquela palavra que não combina com os cuidados centrados na mulher: “permitir”. Acontece que as mulheres não são máquinas para obedecer a um padrão previsível, passível de se demonstrar num gráfico. Não são meras incubadoras dos seus bebés. São mamíferas. E estes rótulos, estas “deadlines” e imposições que colocamos ao seu corpo são responsáveis por muitas intervenções por vezes desnecessárias. Quantas mulheres foram induzidas porque o seu colo ainda está “verde”? Quantas mulheres foram para cesariana por “falta de progresso” no parto? Quantas mulheres foram sujeitas a uma aceleração do trabalho de parto com ocitocina artificial, porque se achava que não estavam a evoluir como esperado?

Não somos máquinas. Algumas mulheres demoram várias horas a chegar aos 4 centímetros, e depois em meia hora a coisa avança à “velocidade da luz”. Umas dilatam 10 cm numa hora. Outras em 48 horas. Às 40 semanas o colo pode estar subido, mas no dia seguinte entram em trabalho de parto. Ou podem ter o colo permeável, e fininho, mas pouco ou nada acontecer durante os próximos dias.

Como se sentem as mulheres?

É importante termos noção do impacto que estas “previsões” e “declarações” têm nas mulheres. Frases aparentemente inofensivas e comuns numa consulta de final de gravidez como “Este colo ainda está muito verde.” Ou “O bebé ainda nem está encaixado” ou durante o parto “Ainda só está com 2 cm”. (dito a uma mulher que esteve 8 horas a lidar lindamente com contrações frequentes). Estas observações podem ter um impacto tremendo nos níveis de ansiedade da mulher. Ali está ela a lidar heroicamente com as contrações e depois parece que “só” dilatou aquilo. Este constante avaliar do progresso causa sim, muita desilusão. Obrigá-la a encaixar-se num molde, ou num resultado esperado, é não ter em conta a sua individualidade, complexidade e humanidade. Pode fazê-la sentir-se como se de alguma forma, o seu corpo não estivesse “à altura”. Que “não é eficaz/ boa/rápida” o suficiente. Acontece que o parto não é uma corrida. Porque é que rápido e maior (mais largo, mais avançado), tende a equivaler ao “melhor”? Em vez de medir o progresso quantitativamente, vamos olhar para aquela mulher. Vamos encorajá-la. Vamos prepará-la. Vamos trabalhar ou desmistificar a sua expetativa (e a dos outros). Vamos falar realmente do que importa: como está o bebé? Como está ela? Se o quadro clínico de ambos se mantiver estável, o parto demorará o que tiver que demorar. Se não dilata ao ritmo esperado, o que importa? Se aquele bebé ainda não encaixou, o que importa? Não significa que não acontecerá. Uma mulher apoiada, que sente que acreditam nela, é uma mulher que está no bom caminho para avançar no seu trabalho de parto com confiança. Se nos conectarmos com aquela mulher ela dar-nos-á “dicas” de como se estão a desenrolar as coisas. Pelos sons que faz. Pela frequência das contrações. Se busca conforto, se quer ficar só, se tem de parar de conversar durante uma contração. Pela posição que adota se a deixarem mover-se livremente…etc, etc, etc…

Claro que por vezes a própria mulher pode querer saber “como as coisas estão”. E isso é razão mais do que suficiente para se fazer um “toque”. E é válido.

Uma ressalva

O exame vaginal tem a sua utilidade e o seu lugar. Pode e deve ser utilizado quando por razão de mal estar fetal ou materno, precisamos de mais informação. Quando agimos numa emergência, isso não é impaciência. É profissionalismo. O problema é que está a ser feito rotineiramente, na grande maioria das vezes.

O que diz a lei?

Voltando à frase que me marcou: “Toques feitos por muitas pessoas diferentes.”- Em nenhuma outra circunstância da vida, seria admissível inserir-se os dedos na vagina de uma mulher, sem ela o consentir, sem ela o querer. Retirada deste contexto, esta frase seria classificada como uma violação. A mulher poderia apresentar queixa por maus tratos (artigo 152ºA) ou injúria (artigo 181º), ambos do Código Penal. Porque é que isso parece admissível quando ela está grávida ou em trabalho de parto? Perderá a mulher a sua dignidade, auto-determinação, sensibilidade e razão quando engravida? Ou quando está em trabalho de parto? Claro que não.

O exame vaginal não é obrigatório. E como todas as intervenções e exames durante a gravidez e o parto, pode ser recusado. Não te esqueças nunca, que é o teu corpo, o teu bebé. Conhece os teus direitos, que estão acima de qualquer procedimento hospitalar.

E finalmente…

Vamos deixar o colo do útero em paz. Ele não precisa de ser “tocado”, manipulado, puxado, alargado manualmente para fazer o seu trabalho. Vamos dar-lhe tempo. Privacidade. E veremos as maravilhas que consegue fazer. E tu, mulher grávida, ou em trabalho de parto: O teu corpo é capaz. Os 10 cm, as medições não importam assim tanto. Lá chegarás. Rodeia-te de quem te apoia, traz contigo quem confias. Estás a ir tão bem.

~ Sara do Vale, doula e sócia fundadora da APDMGP

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